Questões Urbanas

Li nas “redes sociais” algumas críticas à execução do crematório, não pela obra em si, mas pela sua localização, ou por não se ter concretizado a ideia de mudar o cemitério de sítio. A ideia merece alguma reflecção, num tempo em que, como diria Heráclito, a única constante é a mudança. De facto, porque não mudar o cemitério? Será que o cemitério não é mudável? Ou mutável? Será que não podemos mudar os nossos pais e avós, como numa viagem de autocaravana? 

Mesmo em situações limite, a última “infra-estrutura” a mudar é mesmo o cemitério, por situações limite estou a referir-me à construção das barragens, quando as suas albufeiras inundam definitivamente aldeias. Mesmo nessas situações não são deixadas para trás as pessoas que estando mortas se mantêm vivas nas nossas memórias. Vi, vimos, a transladação dos corpos quando a construção do Alqueva obrigou à destruição do cemitério da Aldeia da Luz. O cortejo de muitos carros funerários impressionou, pelo silêncio, pela gravidade do acto.

Mesmo para os não crentes os cemitérios são “chão sagrado” é o local de romagem do 1º de Novembro para a generalidade dos portugueses, ou semanal para viúvas ou viúvos. 

Nos locais totalmente abandonados, os cemitérios são preservados, contêm a história das famílias, “aqui …extremosa mãe…” e de forma quase anacrónica continuamos a ver flores frescas nesses locais sombrios, colocadas em jarras no meio de caminhos infestados de erva. Como na vida, as flores a serem cuidadas no meio do caos.

Tenho para mim que a coabitação pacífica dos (nossos) mortos com os vivos é saudável. Para um crente, que me assumo, os cemitérios representam essa passagem à transcendência e que deve ser lembrada diariamente, como o quão efémera é a nossa vida.

Será que eu aceitaria uma zona comercial em vez do cemitério? Ou um condomínio, ainda mais fechado que o actual? Para quem pense numa “zona de fruição” talvez seja de fruir do cemitério, enquanto cá andamos, talvez seja de ir apresentar o avô ao neto, ou apenas uma conversa com o nosso pai.

A maioria dos cemitérios tem a melhor vista dos locais, mas a vista mais importante é para o nosso passado, uma vista insubstituível 

Tenho para mim que os cemitérios estão mesmo cheios de pessoas insubstituíveis. No meu caso, dos mais pais.

António Rocha Pinto

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