Carnaval de antigamente, por Augusto Gil

Numa breve história para hoje (não me vou alongar porque julgo ao lerem esta crónica não devem ter muito tempo). Muitos tinham que ir arranjar uma carroça ou outro esquema para que, desde sábado até Quarta-feira de Cinzas, no dia do Enterro do Galo, sem dó nem piedade, brincar e deixar para os folgazões (muitos já não existem por cá), gozar o Carnaval, … onde eu me meti hoje, nada vai parecer mal! Nos anos 50, do que me lembro, ainda não havia os famosos corsos carnavalescos como mais tarde virão a aparecer pelas mãos bem conceituadas de nomes que faço questão que ao lerem esta crónica, recordem. As carroças ornamentadas de uma maneira matrafona tinham que levar tantas flores amarelas, palmeiras em arcos, penduradas por todos os lados, o burro com um chapéu por vezes enfiado nas orelhas, uns a tocarem acordéon, muitos garrafões de vinho a completarem a graciosidade daquela viatura para que, ao toque da pinga, a vergonha fosse esquecida e abafada, como quisessem dizer… – “Olha, andava com o copito, nem me lembro do que fiz e onde andei!”. Era tal a risada de nós, mais pequenos, que por vezes levávamos com uns pacotes de farinha, serradura ou mesmo ovos quando corríamos atrás delas (as carroças). Ninguém os conhecia, claro, mas sempre havia alguém que iria reconhecer a carroça ou o burro, de uma maneira simples: – “Olha, aquele burro ou aquela carroça é de fulano ou beltrano” … felizmente, no conhecimento destas coisas, eles eram uns especialistas. E isto porquê? O dia- -a-dia no remendar das ferraduras dos machos, nos mais célebres Ferradores de Almeirim ou no arranjo das ditas carroças com alguns problemas nos chassis, ares condicionados, airbags, etc., “Eles” lá se encontravam todos os dias nesses locais de labuta mecânica… Hoje o” tempo mudou”, como o Eduardo Nascimento cantou uma vez numa canção do Festival… Hoje são nos mais altos concessionários de marcas prestigiadas de automóveis ou oficinas para o efeito. No Domingo e Terça-Feira Gorda as raparigas evitavam sair à rua porque os rapazes empoavam-nas. Esfregavam-lhes a cabeça com farinha, deixando o cabelo fortemente empoado, a necessitar lavagem imediata. Eles entravam mesmo nas residências. Era permitido, era tradição. As raparigas trancavam as portas e gozavam-nos das janelas, mas por vezes os mais ousados iam buscar uma escada de mão, subiam, entravam e empoavam. A nota mais Carnaval de antigamente, por Augusto Gil graciosa eram as crianças, vestidas com trajes de fantasia: Nazarena, Campina, Minhota, Lavadeira, Madeirense, Boneca e outras. Os meninos vestiam-se de Palhaço, à Cowboy, Índio, Campino, etc. E o Carnaval era isto ou pouco mais. Mas o ponto alto eram os bailes à noite, no Ónião, na Banda, no Ramalho, no Sr. Ribeiro, casas particulares, etc. E lá se dizia… Á QUE LESTE… CAGº … COMESTE.

Augusto Gil

.