O brasileiro mais português do Ribatejo

MÚSICA Rosildo Oliveira é um músico e cantor brasileiro que se radicou em Almeirim desde 1996, onde diz ter sido recebido como um filho. É desde os 8 anos letrista e dos 12 cantor, mas é em 1970 que começa a aventura sério no mundo da música.
Ao o Almeirinense conta o seu percurso de vida e o desejos e projetos de uma carreira musical com quase 50 anos.

Rosildo, como surgiu, em 1970, o Jackson Bill e Seus Pupilos?
Resumindo a história, tinha eu 13 anos quando a Professora Julinda Peixoto entra na sala de aula e faz a pergunta: “Quem quer cantar na Festa da Escola?” Foi essa a semente plantada e nunca mais deixou de dar frutos. Nesta época cantava nas praças e cada dia chegava um novo músico: José Trigueiro, Dielson Carneiro e Ivânio Carneiro, assim nascia a ideia de formar uma banda ou conjunto, como se dizia na época. Goyanna, nossa terra natal, no interior do Estado de Pernambuco, ganha sua primeira indústria de nome PONSA e a mão de obra especializada veio de outras terras. Biu, alcunha do nome Severino, trabalhador que tocava guitarra e trazia a sua, nascia aí Jackson Bill e Seus Pupilos. O nome misturava as influências de Jackson Five e Renato e Seus Blue Caps.

O que tocavam na altura?
Os sucessos da época em nossa região: Tim Maia, Roberto Carlos, The Beatles, Jackson Five, Renato e Seus Blue Caps, The Fivers, The Rolling Stones e tantos outros.

Logo aí o Rosildo era cantor e compositor?
O compositor nasceu bem antes do intérprete, Dona Marly, minha mãe, é que descobre que com oito anos adorava passar para o papel meus sentimentos. Escrevia com giz atrás das portas e ela chamou minha atenção e prometeu comprar um caderno para colocar meus versos. Graças a minha mãe preservei o sabor da escrita e da leitura. Sim, ela não tinha condições de comprar livros pois foram e são caríssimos no Brasil. Ela me induzia a ser frequentador da Biblioteca Municipal.

Que idade tinha nessa altura?
O letrista tinha 8 para 9 anos e o cantor surge aos 12 anos, imitando Tim Mais, sua referência inicial.

E a escola, como ficava no meio da música?
Dona Marly estudou em Colégio de Freiras e Sr. João Bernardo mal escrevia seu nome, mas tinha uma sabedoria de causar inveja e sempre cobrava de nós, eu e meu único irmão, o caçula. Somos pobres, mas não vim criar burros e sim homens capacitados para a vida. E assim se fez, sempre fui destaque pelas escolas que passei e como leitor de vida, quando abro um livro lembro meu pai que ficava feliz e sorridente ao ver-me lendo. Meu pai era de poucas palavras e mesmo no seu silêncio e na sua ausência de pai, foi grande e ensinou mais que todos professores que um dia passaram em minha vida. Levei anos para entender sua grandeza. Mas antes dele subir, falei e agradeci por tudo que me deu e o que não pôde dar. Houve um momento que decidi estudar por minha conta, sem escola nem professor. Me transformei em um pesquisador e fui à procura de minhas raízes. Não consigo enumerar as leituras e passei a escrever com mais frequência.

Em casa os pais apoiavam?
Paizinho nunca disse uma única palavra contra, mesmo quando coloquei meu primeiro brinco e meu black power e minhas roupas extravagantes. Também nunca foi num show, mas tinha todos meus álbuns, o motivo era o horário. Reclamava a ausência dele e ele reclamava o horário, já que dormia às 20:00 horas. Já minha mãe só não ia aos shows distantes dela, mas sentava-se na primeira cadeira e os olhos com um brilho único. E tem mais, confeccionava o figurino. Detalhe: minha mãe, meu pai e meu irmão, todos enfermeiros de profissão.

Chegou a faltar à escola?
Nunca, fui sempre dedicado aos estudos e quando o abandonei foi como protesto ao modelo aplicado e pela força da ditadura militar e sua moral e cívica. Nesta época vivia lendo Literatura Universal e via os direcionamentos das escolas, que mais pareciam um quartel. Saí e sem crítica dos meus pais. E sou feliz por ser como sempre fui.

Mas quando veio a música como algo mais sério e profissional?
Em 1970 tudo mudou e já sabia o que queria como profissão. Ganhei o primeiro cachê e vi que era uma profissão como outra qualquer, um trabalho, apesar de muitos não entenderem assim até hoje. Como um profissional criei meus filhos e tenho do meu lado Dona Vera que é meu ponto de equilíbrio e me apoia sempre, e somos felizes há mais de 40 anos, costumo dizer que tenho duas companheiras: a música e Dona Vera e concluímos a história com a terceira mulher – Mainha.

Quais os momentos mais marcantes?
Em 1982 lançamos o primeiro disco um vinil (Compacto Duplo) de título ALPHA e a produção caminhou até aos dias atuais. As viagens internacionais, que só acontecem por causa da profissão. Foram tantas aparições nas Televisões de Pernambuco, Paraíba e para um artista guerreiro eram momentos de muita relevância, pois é o talento quem conduz sua trajetória de tantos anos. Na real, os momentos marcantes são todos quando subo em um palco e entendo minha vida e vejo todos que contribuíram e muitos só eu vejo.

E o primeiro álbum quando surgiu?
1982, o vinil (Compacto Duplo) com duas canções em cada lado.

A vinda, a primeira para Portugal, foi quando e porquê?
Março de 1996, mas uma história como tudo que cerca nossa vida. No início do mês, o então Vereador Aristávora de Souza Santos da cidade de João Pessoa, na Paraíba, compra nosso CD “Coisas do Nordeste” e ao ouvi-lo faz a seguinte pergunta: “queres ir para Nova Iorque onde tenho um amigo que trabalha com artista nesse nível?” respondi: “Nova Iorque quero não, mas se puder ser Lisboa”… Ele respondeu que sim e na semana seguinte voei. Nunca quis conhecer Nova Iorque e era em Portugal que morava não só minhas raízes, mas também meu parceiro de palcos e vida, um irmão de luta. Paulo dos Anjos é o maior responsável por minha vinda, já que por carta e depois pessoalmente pintou o quadro que depois seria real. Portugal, um amor escolhido. Quem nasce cá já nasce e pronto, eu resolvi: vim, amei e fiquei e aqui tenho raízes. No dia que cheguei, Paulinho e Zé Águas me aguardava, é que Zé ficará uns dias em nossa residência no Brasil. À noite Paulo me carrega para um Bar na rotunda do bairro São Domingos, em Santarém, e como sempre faz, referenciou minha presença e convidou para cantar. O nome do bar não lembro mais, porém lembro da música, gostoso demais e a senhora, dona do estabelecimento, me pediu a agenda, queria marcar datas comigo lá. Bela forma de recepção, fiquei enamorado de cara com o país. Em cada sítio que cantava era como se conhecessem minha voz há muito.

Em Portugal não chegou a ser só cantor e compositor?
Olha, essa pergunta deve ter sido por causa dos nove anos de rádio, mas saiba que nunca deixei de fazer música em minha existência e aqui é um dos lugares mais férteis para Rosildo compositor, nasceram aqui mais de 100 canções e desde que regressei já são umas tantas. A rádio era um bichinho vindo de Goyanna e do mestre Otávio Fernandes. Não me considero um bom animador, mas sou verdadeiro, nunca rio sem vontade e não sei ser simpático só para agradar. Fiz uma legião de amigos no período que dominava as manhãs, Manhã Tropical chegou a chamar a atenção da média nacional, a RTP2 veio confirmar o sucesso de audiência. Minha gratidão àquele auditório espetacular que me acompanhava das 07:30 ao meio dia.

Também porque o meio estava saturado?
A música saturou como o comércio encolheu. Quando aqui cheguei, a moeda era escudo e o país era outro, e meus rendimentos também. Quantas saudades do velho escudo! O mercado cultural sofreu um flagelamento, qualquer um vira DJ e pensa que é músico, e se tiver belas pernas e bunda grande, melhor. As letras são: senta aqui, senta ali e toca a andar. Já não se faz o que se fez e o mercado de hoje já não é amanhã. A música brasileira virou mercadológica e o que é velho não presta, com raras exceções. Vamos firme no nosso propósito e o hoje sei muito mais que pensava saber antes.

Veio logo para Almeirim? E porquê?
Graças a um irmão de palcos e vida, Paulo Miguel dos Anjos, a quem sou grato por me colocar nesse caminho que deu nessa linda cidade. Quem chega cá aprende a amar esse chão que dá bela sopa.

Depois de alguns anos no Ribatejo, o Rosildo voltou ao Brasil, porquê?
Em 2011, faziam exatamente 11 anos que não via Dona Marly e Sr. Bernardo e um filho e alguns netos. O coração até levou um aparelho de tantas saudades. Meus pais entravam nos 80 anos e comecei a temer que subissem sem estar comigo antes. Depois a crise, começou a faltar o vil metal. Parti, deixando em Almeirim uma parte de mim: duas filhas, vários sobrinhos e uma turma de amigos e dos Anjos e sua trupe. Aqui aguentei onze anos distante de lá e lá só aguentei seis.

Já se sente ribatejano?
Sou o brasileiro mais português do Ribatejo. Nasci em Goyanna-Pernambuco-Brasil e amo muito essa terra-mãe, mas não posso esconder de mim o amor que tenho por Almeirim e que sou recebido como filho, portanto um filho não abandona uma mãe.

Voltando à música. O que anda a fazer agora?
Nunca deixei a música, nasci músico e assim vou morrer. E resumo assim: “Eu canto porque o cantar está em mim, como a vida. De mim sei dizer pouco, mas do meu canto sei que é puro e verdadeiro.” Um dia, um dos maiores músicos de Portugal e de Almeirim, Custódio Castelo, me fez um convite dizendo: “vou fazer o disco de tua vida”… E assim foi, convidamos meu parceiro e irmão Maninho para colocar sua guitarra única, com parceria com a guitarra única portuguesa de Custódio, mas a participação de Paulo dos Anjos e Goreti Meca, nascia INTERIOR. Projeto que foi entendido e lançado pela Editora País Real. Em breve, todos vão ouvir e se deliciar com uma obra digna de se ouvir.

Sobre o que escreve agora?
Concluí um dos meus livros e duas editoras portuguesas aprovaram, mas cada coisa num tempo: primeiro a música e em seguida vou cuidar de meus escritos. Tenho três livros no forno e prontos para virarem papel, porém vou aguardar os outros projetos musicais saírem.

O que lhe falta fazer na música?
Gravar com uma Orquestra Sinfónica minhas obras.

Em 2020 assinala 50 anos de carreira. O que quer fazer para assinalar a data?
Um show no Coliseu, onde irei lançar disco novo e um dos meus livros. Logo se vê.

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