Tenho uma vida dupla

Saio quase todos os dias de casa ainda de noite. Tento fazer pouco barulho para que a minha mulher não dê conta e arrasto os pés no corredor para não acordar os miúdos. Se tudo correr bem, quando voltar ainda estão todos a dormir, nem dão pela minha falta. Sim, esse é o ideal. Tento ao máximo manter os mundos separados, mas como todos os polígamos sabem, é muito difícil. Tantas vezes que estou com a minha família e ela não me sai da cabeça…

O pior é ao fim do dia, depois do trabalho, quando preciso (e quero) dar 100% de dedicação aos meus filhos mas estou derreado depois de um dia de trabalho e 2 horas de madrugada com ela.

Sim. É difícil…

Há algum tempo decidi contar à minha mulher, a minha melhor amiga. Já desconfiava, mas custou-lhe… A minha mulher é a melhor pessoa do mundo, verdadeiramente a minha outra metade. Ela sabia há muito tempo que não vivia sem as duas. Ela sabia que eu não faço sentido sem as duas. Aceitou-me a mim e à minha vida dupla. Não só isso, desde então tem feito tudo para que a mantenha. Quando preciso sair de madrugada é ela que se levanta quando um dos miúdos chora, quando passo dias inteiros fora é ela que segura as pontas. A verdade é que era impossível existir uma sem a outra.

Tenho tentado desde sempre aproximar as minhas duas vidas. Levo-os comigo, marco férias juntos. Quero fazer-lhes ver como faz sentido, quero que se apaixonem por ela tal como eu me apaixonei!

Trago-os comigo. Sempre. Seja fisicamente ou em pensamento. Trago-os comigo quando me levanto todos os dias às 5:30 da manhã para correr. Trago-os comigo quando me levanto ainda mais cedo, ao sábado, para passar uma manhã inteira a treinar. Trago-os comigo durante as horas infindáveis que passo todas as semanas a preparar-me para me encontrar finalmente com ela. E é nesses encontros, nesses tão demorados e intensos encontros, que os sinto mais comigo. Quando passo uma noite inteira em esforço, o culminar de horas e horas de preparação, quando chego ao limite das minhas capacidades físicas e mentais, quando penso que não consigo dar nem mais um passo, quando vejo o sol a nascer por trás de um vale, quando o frio gelado da altitude me arrepia todos os pelos do corpo. É aí que os sinto mais comigo. É aí que eu, a minha mulher e os meus filhos estamos juntos. Eu, eles e a minha outra paixão: a corrida de montanha.

 

Filipe Torres – Engenheiro

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